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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O bolso ou a vida


Nesta semana, 
uma bolsa de mulher 
me salvou.
Hora de republicar 
este meu texto, 
já de 10 anos atrás.
Explico ao final...
___________

Dia normal de trabalho, você precisa discutir com uma colega sobre um assunto importante, você sabe o ramal dela e liga direto. 1, 2, 3, 4 toques, entra a secretária eletrônica. Pelo número de toques, você percebe que ela não está na sala, mas você não deixa mensagem, pois tem urgência. Você vai pacientemente ao celular, procura no catálogo pelo celular dela, encontra e liga. 1, 2, 3, 4 infindáveis toques, às vezes a voz mecânica entra. Você xinga, mas ela não está nem aí, continua falando como se nada tivesse ouvido. Você vai ao catálogo da empresa, e procura por algum ramal do setor ou departamento em que ela trabalha, para encontrar a secretária ou alguém por perto da baia dela (ah! a beleza da vida corporativa!), de repente ela está logo ali, quem sabe você dá uma sorte. Alguém atende e você pergunta por ela, aí vem: “Ela já chegou, sim, estava por aqui neste momento, aguarda um pouquinho”. (muito solícito, mas a adrenalina vai aumentando...).  1, 2, 5, 10, 20 insuportáveis segundos, volta o colega de boa vontade: “Ó, ela saiu da sala, mas não deve ter ido longe, pois ela deixou o celular na mesa, deve ter ido ao banheiro!” (a pressão sobe ao vermelho!!). Ora, ora, por que diabos ela tem um celular se não anda com ele? Você, então, procura manter a calma e pede que o simpático colega avise à querida colega, quando ela voltar de não sei onde, que você precisa falar urgente com ela!

Aí, você se lembra imediatamente da insolúvel incompatibilidade entre mulheres e bolsos. E até tenta compreender, onde já se viu roupa de mulher com bolso? Não permitir-se-á nada que ameace a silhueta mantida pela calça justinha, delineando as formas, enfim, sabe-se lá!! Algumas peças de vestuário até contam com aquele simpático e prático compartimento, feito para abrigar pequenos utensílios que podem vir a ser úteis em algum momento do dia-a-dia, o jeans, por exemplo, mas, invariavelmente, aqueles bolsos estão lá só para enfeitar, vaziozinhos, como se não existissem. O bolso é uma figura desprezível na vida da mulher. Em camisa, então, nem pensar, o que é totalmente justificável!
Em outra situação, você a procura no celular, ele toca, toca, toca, se esgoela de tocar e nada. Você repete a tentativa, uma, duas vezes e desiste. Quinze minutos depois, ela te liga: “Oi, você ligou???!!! Tinha 3 chamadas perdidas no meu celular! É que eu estava no almoço e, com a barulheira do restaurante, acabei não ouvindo, pois ele estava na bolsa!” (... me tira os tubos!!). Não adianta, pode botar no volume que quiser, ligar o vibra-call no nível ‘terremoto’, que não vai dar resultado, a bolsa está lá na cadeira vazia, junto com outras cinco companheiras, igualmente abandonadas!
Entra então a personagem, esta sim, onipresente na vida feminina, a bolsa. Uma letrinha só diferente na escrita, mas quanta diferença! Um, rejeitado, a outra, inseparável! O que seria das mulheres sem suas queridas bolsas? Documento, carteira, talão de cheque, remédio, maquiagem, escova, chaves, creme para as mãos, agenda, i-pod, lenço, óculos-de-sol, guarda-chuva, enfim a mais variada quantidade de badulaques, tudo vai naquele sumidouro. Chego a lembrar-me de minha tenra infância, da bolsa da Mary Poppins, de onde saía até abajur. Isso tudo tem que mudar de lugar naquela hora da manhã em que todos tem pressa, sabe, com o marido esperando, já com o carro ligado. Sim, porque claro, impensável é que se use a mesma bolsa dois dias seguidos. Então, além da dúvida cruel sobre  'qual bolsa combina melhor com minha roupa?', que toma alguns minutos, senão dezenas, tem o tempo gasto de mob/demob, que consiste em remover os objetos da bolsa de ontem e colocá-los na bolsa de hoje. O que não impede de ouvirmos, meia hora depois: 'Ih! Esqueci dos óculos na outra bolsa!'


Na bolsa, está, inclusive, o querido celular: não adianta a caixinha do bichinho vir com prendedores de cinto, penduradores para pescoço, ou outra solução qualquer para carregá-lo, o destino final de todo celular feminino é lá, afogado junto com as mil e uma outras utilidades do universo feminino. O que provoca também, muitas vezes, aquelas ligações misteriosas, provocadas por algum daqueles objetos contundentes, um batom, um chaveiro, sei lá, que acaba acionando o último número chamado. Ou seja, além de não serem atendidos, porque afogados, eles ligam sozinhos, porque afogados! Surreal....

            Houve época em que homem também usava bolsa, a tiracolo ou, ainda, na forma da indefectível pochete, hoje meio fora de moda (eu usei ...). Ainda passamos pelas carteiras, que carregávamos na mão, facílimas de serem esquecidas nos mais variados balcões. Hoje, concentramos nossas necessidades diárias nos queridos bolsos, em nossas confortáveis calças, em nossas sociais camisas. Vamos desconsiderar a moda adolescente de ter bolsos até à altura dos joelhos, sabe-se lá o que guardam lá, fiquemos só nos tradicionais. A gente se lembra da utilidade dos bolsos quando viaja de avião, que bem faz um bolso numa camisa! 

Depois, vem a multiplicação do efeito benéfico: o paletó, com seus cinco bolsos entre externos e internos, recheados de apetrechos de viagem. O paletó é a bolsa do homem, utilíssimo em viagens, mormente as internacionais. Bilhete (eletrônico ou papel), passaporte, dinheiro, cartão de embarque, ticket de bagagem, cartões de visita, formulário da imigração, da alfândega, pen-drive, caneta e, claro, o inseparável celular, todos confortavelmente acomodados no paletó, para passar facilmente na caixinha do raio-X. E cada um no seu lugar, facilmente localizável, bem diferente do visceral dilema feminino ao procurar qualquer coisa na bolsa. A única coisa que se tem certeza quanto a pertences em uma bolsa, é a de que eles entraram lá; agora, encontrar e extrair de lá, exatamente o que se deseja, é uma história bem diferente. A não ser, claro que se apele para aquela radical chaqualhada de cabeça pra baixo. Deixo aqui um alento para o inseparável apetrecho, tenho que admitir: nós, homens, invariavelmente, vamos precisar, alguma vez em nossas vidas, de alguma coisa não temos à mão, e as bolsas delas estarão lá para nos salvar!

Sei que a mulher de hoje conquistou um mundo muito maior do que cabe em sua bolsa, mas permito-me esta análise levemente crítica sobre o acessório indispensável para uma enorme maioria delas!!!
E, na verdade, nas diferenças é que mora a beleza. Se as mulheres não usam bolsos, é para ficarem mais elegantes, seja para nós, seja (quem sabe, principalmente) para as outras mulheres. É assim que as conhecemos e assim que as amamos. E que continuem assim. Mas, ao menos, que encontrem uma solução compatível para que sejam encontradas neste fundamental meio de comunicação do mundo moderno.
            Vida longa à classe e à elegância feminina!
__________________
A pinça salvadora!



30 comentários:

  1. Sensacional esse texto. Adorei e me encaixei perfeitamente. Minhas bolsas são enormes, e tudo se perde lá dentro no momento em que mais preciso. Tudo bem. Somos assim.... o que fazer? rsrs...

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  2. Grande Homero,

    Já que eu estou na PAI, vai em Inglês: "Boss, you keep exceeding expectations!"

    Este seu artigo tem publicação certa em várias revistas. Muito interessante a construção do texto, os links, da questão do celular às diferenças entre nós e elas, é light, engraçado e tem conteúdo... enfim, por que você não manda?!?

    Eu já tentei várias vezes ter um ensaio publicado na Veja e porém nunca consegui, mas um dia eu chego lá.

    Great stuff, keep writing.

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  3. muito bom.....poderia ir pra um desses jornais/revistas da PB....

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  4. Excelente homero. Voce devia enviar para uma coluna de jornal. Está perdendo tempo e privando uma multidão de rir com suas colocações. Eu concordo em gênero, numero e grau, e ainda acrescentaria que, ainda quando a mulher escuta o celular na bolsa, pelas inúmeras razões apontadas por você, ela jamais consegue chegar a ele a tempo de atender a chamada. No caminho ela encontra toda aquela sorte de badulaques, (entre os quais você esqueceu dos inúmeros papéis velhos relativos a notas de cartão de crédito - muito importante este), mas nunca acha o celular (que, pela sua alta densidade, tende a se concentrar no fundo daquele buraco negro.
    Sds,

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  5. Muito bom!!!
    Você descreveu exatamente o que acontece conosco, nossos celulares e bolsas. Para nós, é normal, natural. Difícil para vocês, homens, compreenderem. Mas gostei, mesmo, foi do final.

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  6. Pois é, Homero, nada melhor que do ler as suas crônicas numa sexta-feira morna e com expectativas de uma "tela quente" na segunda-feira

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  7. Boa.

    Um adendo: algumas mulheres - espero que a imensa minoria, usam bolsos, sim. Usam e abusam dos "bolsos cheios" de maridos e amantes. Para esse caso, vale bolso bem grande!

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  8. Homero
    No meu caso o paletó também me ajuda a não perder meus reading glasses, inseparáveis instrumentos de trabalho (ainda bem que no lazer ainda não preciso, mas estou chegando lá).

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  9. Olá Homero!

    Gostei! Que viva a elegância feminina!!

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  10. Olá Homero, como vai?

    Caramba, amei essa sua tirada! Pude me espelhar direitinho na sua descrição! Bah, espero nunca te "tirar os tubos" assim em prol da minha elegância...!!!

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  11. Ótimo texto!!!

    Me sinto uma ET dentre as mulheres, pois não sou de comprar muitas bolsas e sapatos (gasto esse dindin pra viajar, mas acabo comprando uma ou outra bolsa /sapato na viagem... risos).
    Enfim, tenho algumas, mas elas combinam com quase tudo. E mesmo mudando pouco de bolsa, tenho um apetrecho que é muito usado por quem tem bolsas grandes e as troca a toda hora: uma bolsinha-refil com ziper. É só tascar 99% das coisas lá e quando for mudar de bolsa é só trocar a bolsinha refil de lugar...

    Feliz dia das mulheres para nós todas!!!! Com muitas bolsas !!! :o)

    abs
    Anne

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  12. Muito bom Homero, valeu o convite. Me chame sempre, eu não costumo navegar muito aqui na net e assim acabo perdendo muita coisa ótima.
    Abraços.

    Marcelo Moura Fortes.

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  13. Muito legal.....é bem assim mesmo....como disse um colega seu acima....qdo toca o celular...até que o achemos dentro da bolsa a ligação já era.....kkkkk.....

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  14. Não consigo me separar da minha bolsa. Sempre reclamo que ela está pesada, mas tudo que está nela é essencial rs.

    Parabéns pelo excelente texto.

    Bruna

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  15. Meu caro Homerix, de fato o texto é "relax" além de elegante, como disseram outros, vale publicar. Bolsos & Bolsas, Dia Internacional da Mulher, o "utilíssimo e inseparável" celular. As bolsas das mulheres são como buracos negros: tudo é atraído para aquele imenso campo gravitacional; depois desaparecem...

    Forte abraço,
    Eu

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  16. Homerix,
    Você soube descrever como ninguém as "trapalhadas" que as mulheres cometem nos seu dia a dia.São poucos os homens que conseguem entender as mulheres.Quantas vezes não levamos bronca por não atendermos o celular?E a bagunça da bolsa?
    Com certeza,ser mulher é maravilhoso.A gente se perde,a gente se acha. Se fossemos homens não teríamos a menor graça...

    Renata C.Peres

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  17. Sensacional!!!!! me identifiquei integralmente...rsrsr Realmente me sinto nua se estiver sem minha bolsa!

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  18. Rsrs...Adorei ! Simplesmente, adorei ! Não saberia ser diferente...rsrs. Parabéns pelo texto leve,adequado, gostoso de ler.Abraços !

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  19. obgdo amigo adorei vc esta de parabéns

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  20. Homero, amei!! me identifiquei, é isso mesmo que acontece.Abç

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  21. ahahhahahahaaa....muito legal!! Verdade absoluta... que venham novas bolsas... sem nos esquecermos ,claro, que "Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa será louvada" Provébios 31:30 bjkas Flavia Leal

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  22. Muito bom Homero. Louvável sua percepção do universo feminino.Sem nossas bolsas ficamos pela metade, mas, como vc bem lembrou, ela salva nossos homens em inúmeras situações pq, se duvidar, tem até chave de fenda! rsrsrs

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  23. De fato...o bolso não nos pertence..
    porque pra nós mulheres,a bolsa faz o papel do bolso,
    mascom um formato mais interessante...o bom é a procura...a ansia de encontrar,acho que isso faz a
    adrenalina pulsar...procuraro celular??o batom...rs..
    coisas de mulher..as vezes ser meio desogarnizada nos faz ter...
    um certo charme...mas contraponto...gostei dos bolsos...
    que fazem os homens ser o que são...organizados...diretos...
    bom deixa eu dizer o que vim fazer aqui:
    aradecer o carinho,do seu interessante texto...a nós
    mulheres!!
    abraço da
    Lady Dell

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  24. Muito bom! Não da pra acreditar que um homem narrou com tantos detalhes o cotidiano da mulher e sua bolsa. Eu já me perguntei o porquê de levarmos tantas coisas na bolsa se quando precisamos não encontramos...
    Abraço,
    Grazzi.

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  25. Mais um dos seus "super brilhantes texto... seria um conto mesmo... vai nessa direção, que é seu caminho!!!!!!!
    Paulus

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  26. Impressionante a sua capacidade, sendo homem, de descrever com tamanha perspicácia, a nossa relação de ódio/amor com nossas bolsas!!! Todos os comentários já disseram tudo e é óbvio que concordo com tudo sobre a sua facilidade e brilhantismo ao escrever qualquer texto. Já te disse, aliás, o qto os leitores dos grandes jornais estão perdendo por não tê-lo como articulista. E um grande escritor só poderia ser pai de uma grande escritora. Família de monstros da literatura: parabéns!!!!!!!!!!!!!!!

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  27. A-DO-REI as suas perspicácia e enorme capacidade de observação e daí ... extrair a essência do 'relacionamento' da mulher e sua inseparável bolsa!! Creia, amigo, tudo que nela está contido é classificado como 'essencial' (para a sua dona, claro) mas nada impede de que nos momentos em que os homens necessitam de um simples 'band-aid' (para ajudar a sarar um coração partido) ou um comprimido de Neosaldina (para estancar a dor de cabeça provocada por uma filha ou filho rebelde) ou lenços de papel (para secar o suor produzido pelo esforço de trocar um pneu para a sua mais nova atração...aquela que substituirá a que partiu-lhe o coração) ou colírio (para ver a vida com mais clareza e beleza) que eles não encontrem na bolsa de uma mulher!! Como voce pode depreender, a bolsa feminina é, praticamente, de utilidade pública! rsrs
    Abraço grande da Rosana

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  28. Homero, vc é um impagável observador dos defeitos e virtudes das mulheres! Só tenho a te parabenizar, mais uma vez, pela acuidade e perfeição do texto e te dizer que, como mulher, sou exatamente isso aí que vc definiu: um bicho esquisito e diferente, que poucos homens podem entender... Abraços, grande escritor!

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  29. Muito bom Homerix! Já lhe falei que você é um excelente cronista e deveria reunir seus textos para publicar em um livro! Grande abraço. Desiderio.

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  30. Homerix,

    Muito bom seu texto. No Brasil, infelizmente, eqüidade de gênero, em que pesem anêmicos avanços, ainda soa muito nos discursos e pouco na prática.

    Hoje li o editorial do jornal mexicano El Universal, sob o título "Humano de sexo femenino", que me encantou e recomendo a sua leitura no sítio: http://www.eluniversalmas.com.mx/editoriales/2015/03/75210.php . Reproduzo um trecho para referência: "La igualdade entre sexos hace, además, más eficiente a la sociedad que ha logrado instaurarla. Esa es la razón por la cual las naciones más avanzadas y prósperas suelen ser también las más equitativas. Relegar a la mitad de los habitantes del país a un estatus inferior al del resto conlleva un atraso económico y cultural. Las mujeres valen por su condición humana, no por su género."

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